Nas remotas épocas, tive oportunidades de me redimir com minha consciência, mas sempre postergando, deixando para depois o encontro com o meu eu.
Vivi várias situações, e hoje como um ser sem o corpo material, olho para trás e percebo o quanto eu fui leviana em meus atos. Mas se eu fosse me lamentar por tudo que fiz, sentaria no banco da eternidade e choraria inconsolável. Mas isso não me levaria a lugar algum, só me atrasaria em minha evolução.
Analisando minha situação percebo a bondade Divina em meu íntimo, sempre me dando oportunidades de aprender.
Se vivi em épocas onde a escravidão era imperativo predominante, analiso a minha trajetória e as horas que desperdicei.
Na casa grande eu era a criança adorada pela sinhá. Doce sinhá que muito me amou e me ensinou. O sorriso dela comparava-se ao sol que irradia o calor dentro do coração. Fui por ela amparada quando me despedi de minha adorada mãezinha que foi ao encontro do Pai. Contava com apenas cinco anos, quando eu fui transferida da ala dos serviçais para a parte de cima do casarão. Talvez na época eu não entendesse bem o que estava acontecendo, a mudança que implicaria um novo rumo em minha vida. A situação da sinhá era de saudade, os filhos estudavam na Europa e o relacionamento dela com o Sinhozinho não era dos melhores.
Ela se apegou a mim e eu a ela, afinal, se apegar ao amor é muito fácil e rápido;foi para mim a educadora moral que toda criança deveria ter. Iniciou-me na religião católica, já com oito anos eu sabia rezar o terço. Como a fazenda era distante, as visitas eram escassas, e raramente um médico iniciado na Europa vinha oferecer seus préstimos ao Senhor. Esses médicos se formavam e vinham para a cidade com esperança de progresso, mas logo se desiludiam e iam atrás de outros rumos. Os mascates raramente apareciam, mas quando vinham eram horas de diversão. Era nesses momentos que a gente se atualizava e conhecia as novidades da cidade.
Sinhá Maria Tereza me apresentou para as artes, e desde esse momento, eu senti que iria me expressar através dos artefatos de pintura.
Desligava-me do mundo nos momentos em que a gente ia para o meio da mata pintar as belezas da natureza.
Sempre, íamos eu, Sinhá e o carregador, mas com o passar dos anos, ela foi ficando debilitada e não pode mais me acompanhar.
Eu segui sozinha, dispensei o suporte do carregador e me embrenhava pela mata a procura de novas paisagens.
Numa dessas caminhadas, percebi uma movimentação diferente e seguindo o barulho me deparei em uma clareira que abrigava um acampamento de ciganos. Deslumbrei-me com as cores e a música, as roupas das dançarinas eram fascinantes.
Senti como se estivesse encontrado o meu mundo e sem raciocinar muito fui me aproximando, admirando tudo e com a minha ingenuidade, esqueci que negro era considerado animal, na minha posição como “filha adotiva” da sinhá Tereza, sentia-me como gente e não como um ser considerado desprovido de alma.
Fui me aproximando até que me descobriram e entre risos e ameaças me arrastaram para dentro do acampamento. Os traumas que eu ainda tenho desse tempo me travam na lembrança dessa época. Fui tratada como o pior dos insetos, e todos, sem exceção me repudiavam. Fui amarrada, amordaçada e trancafiada dentro de uma carroça para servir de troféu, sendo mostrada para todos. Sentia-me como se todas as esperanças de viver estivessem acabadas. E não foi diferente dos meus pensamentos.
Acabou nesse momento minha liberdade, e se eu escapei de ser escrava na casa grande, perante esses irmãos eu me sentia como se eu tivesse nascido para servir. Fui proibida de dirigir a palavra a quem quer que seja. O acampamento seguiu viagem, e como as pessoas desprezavam os ciganos, tachando-os de ladrões e bruxos, elas não se aproximavam e o sonho de conseguir o socorro se esvaía a cada oportunidade. Ilusão a minha achar que branco qualquer iria se apiedar de mim.
Imaginava o sofrimento da Sinhá em ficar me esperando e horas passando, dias passando e nenhuma resposta a seu lamento. Foi necessário, hoje eu consigo compreender que a justiça de Deus é imutável, e foi preciso passar por isso para chegar onde cheguei em níveis de compreensão.
Se eu não tivesse vivido no carinho e no respeito, talvez eu não conseguisse perdoar e aceitar.
Resgatei junto com meus irmãos ciganos o rapto de linda criança loura de outros tempos, onde eu precisei de um disfarce para a minha mentira para conseguir me adentrar na vida de um fidalgo louro. Consegui, com a criança, prendê-lo em meu coração e em minha vida, onde ele se entregou apenas por amor à criança que julgava ser seu filho.
Amigos, eu, na escravidão não estava em posse desses conhecimentos conscientemente, mas sabia no fundo do meu ser que era necessário resignar-me.
Encontrava na educação religiosa que eu recebi o conforto para minhas amarguras, nesses momentos de solidão e sofrimento.
Anos se passaram nessa situação, até que fui abatida por uma pneumonia que me dilacerou os pulmões, dando-me a liberdade que almejava.
Sou livre hoje e consigo amar a Deus por ter me dado a oportunidade de rever e reescrever as minhas experiências. Se me abro hoje, é apenas com uma única intenção de alertar que não existe acaso na obra Divina, e que se coisas monstruosas acontecem é porque tem um significado profundo e um porque bem sábio.
Confiem em Deus, principalmente nos momentos de tormentos Amem a Deus INCONDICIONALMENTE.
Reflitam sobre os fatos que estão acontecendo e orem pelo destino daqueles que ainda estão sendo motivo de escândalo.
Maria os envolva para todo o sempre.
Cândida.